
50 anos
Algo que ainda me fascina e assusta ao mesmo tempo é o apego de tantas pessoas a certos projetos de vida, de trabalho, determinadas posturas pessoais que fizeram sentido décadas atrás, nos séculos passados, há milênios, mas que agora se tornaram anacrônicas e absurdas. Talvez certa dose de paixão cega mantenha esses comportamentos, como se o tempo não tivesse passado, como se a história não avançasse. O fato é que hoje vivemos de modo muito diferente de outros tempos, e o que era apropriado e conveniente para essas épocas, ultrapassado foi, arcaico se tornou, inadequado e contraproducente, absolutamente irracional, apenas aparentemente humano, pois ser humano é evoluir e aperfeiçoar-se.
Ninguém está fora desse contexto, nem o que toma estas palavras neste texto, pois um esforço contínuo é exigido pela vida. Quem pára de se esforçar para superar os instintos, a irracionalidade que se acumula nas mentes, não se imobiliza, mas retrocede e se degrada, migrando para os limites da existência, para as áreas turvas e os terrenos pantanosos.
Nos 50 anos que completo hoje, 25 de março de 2008, às 14:40 h (se não me engano, Áries e Leão, Deus nos acuda...), a idéia que se torna mais clara em meu pensamento é a de que viemos a este mundo não para sofrer, nem para batalhas sem fim, nem para sermos ricos e poderosos, ou pobres e desprotegidos, ou para conquistar, vencer ou perder, nada disso. Isto faz parte da vida. Viemos ao mundo para encontrar respostas, para perguntas enraizadas em nossa alma como se fossem a nossa própria chama, o único sentido pelo qual nascemos. Primeiro produziram-se essas interrogações no universo, depois, criaram-se as pessoas para procurar respostas para elas. Viemos ao mundo para deixarmos de ser ignorantes, mesmo que seja em alguns pouquíssimos e minúsculos pontos. E isto justifica toda a nossa existência, tudo o que passamos pelo caminho, todos que conhecemos e que amamos, e é só isso que conta, em essência.
A facilidade com que alguém destrata, humilha, agride, prejudica, odeia..., é uma coisa que não compreendo. Nunca compreendi, desde pequeno, embora também cometa os mesmos erros. Então, alguns acham que a resposta para eles é essa? E não percebem que estão completamente errados, e que estarão cada vez mais distante de si mesmos, mais perdidos, mesmo que os fatos da vida repetidamente se apresentem diante deles, evidencie o descaminho, apresente os melhores argumentos, os riscos, as alternativas, a diferença infinita entre agir corretamente e errar, mesmo assim, como uma doença, como se a própria vida fosse insuportável, como se maldissessem a própria imagem, insistem em renegar, em resistir, em aprofundar os ferimentos, no corpo e na alma, de si e de seus semelhantes. Quanta paixão, quanta confusão, quanta dificuldade! A vida é mesmo difícil, e precisamos de ajuda, precisamos uns dos outros, precisamos acertar.
Este tempo atual tem como característica as amplas perspectivas do passado e do presente. Se quisermos, podemos ver quase tudo, mas a quantas anda a nossa compreensão? Sabemos que estamos aqui para aprender, cada um a sua lição, cada um a sua necessária gotinha eventual de cicuta? Estamos caminhando ou apenas vagando errantes, sem qualquer noção?
Não quero dizer que tenho as respostas, mas, após 50 anos, aprendi a perceber as interrogações. Aprendi que somos feitos de perguntas, e que somos construídos por elas. E que algumas dessas perguntas realmente contam muito, enquanto a outras nem vale a pena tentar responder.

Um comentário:
Parabéns Horácio... lá no blog do nassif vc avisou de seu aniversário e vim te visitar e adorei sua crônica...
"Quanta paixão, quanta confusão, quanta dificuldade! A vida é mesmo difícil..." e um pouco triste é pensar que o nosso tempo diminui a cada dia e tantos vivem como se fossem eternos... Feliz Idade!!!! Mary
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