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Citação de Bakhtin::

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quarta-feira, 12 de março de 2008

A Teoria Geral das Forças Produtivas 13 – Os procedimentos de confrontação de guerra e paz

FOTOS DA FINAL CONTURBADA DO BASQUETE, ENTRE URSS E OS ESTADOS UNIDOS, E DO ATENTADO TERRORISTA

Os Jogos Olímpicos de Munique em 1972 foram o auge da “contaminação” do espírito esportivo pelos confrontos bélicos e ideológicos da Guerra Fria e do Oriente Médio. A esportividade, quando não “ocupada” pelo belicismo ou pelo mercantilismo exagerado, é uma das formas mais desafiantes e sadias dos humanos encontrarem ou superarem os seus próprios limites, e os dos outros, respeitando-se os limites e regras de convivência pacífica.


Na era do conhecimento, que instala seus mecanismos iniciais nestes anos presentes, a confrontação será um dispositivo constante, necessário e fundamental, ao contrário do que se pensa, mas confrontação, neste caso, é o oposto da agressividade e da violência, sem prescindir da combatividade.


Pêcheux chamava de interpelação, isto é, checar cobrando pelo discurso a posição de um outro sujeito, individual ou coletivo. Bakhtin usava o termo confrontação para distinguir o processo discursivo, ou seja, a interpelação compreenderá uma dinâmica de negociação, um reconhecimento das posições e valores do outro, acompanhados de aceitação ou de rejeição, ou ainda de distanciamento, quer dizer, a interpelação levará à confrontação, mas este é justamente o cerne das linguagens e da interação social, quando os sujeitos se encontram no diálogo, na produção dos sentidos, das medidas e das posições relativas e recíprocas entre todos.


Mas os procedimentos de confrontação, isto é, a interação social organizada, dentro de comunidades, através de sistemas lingüísticos, pelo discurso em suas várias formas comunicativas-informativas (multimeios, memórias, microdiálogo, diálogos interiores...) vivem situações muito diferentes dos séculos anteriores, portanto seus protocolos e procedimentos devem-se alterar profundamente.


Por que havia tantas guerras? Porque o desconhecimento entre todos era muito grande. Não só o conhecimento subjetivo que cada indivíduo tinha de si mesmo, mas também as formas de conhecimento coletivo dos grupos e comunidades, das instituições e do meio exterior, de outras comunidades. Então era mais difícil compreender as posições de outrem, e sendo assim, mais difícil negociar e usar a diplomacia. Isto fazia com que as resoluções de força fossem quase permanentes, redundando em guerras sem fim, o que acabou criando uma “cultura de guerra”, e isto enraizou ainda mais a disposição para a luta, para a “confrontação”, como modo de determinar as trajetórias individuais, coletivas e no campo exterior das comunidades. Os confrontos armados ou instrumentalizados por formas agressivas predominaram. Não se tinha uma boa visão dos fatos, a visibilidade dos outros pontos de vista era bem limitada, e sempre ofuscada pelos interesses antagônicos e pelas paixões. Era muito difícil conceber alianças e parcerias que não fossem contra terceiros. Todas as angústias e afirmações existenciais acabavam sendo canalizadas pelos esforços de guerra, e pelo heroísmo de guerra. A paz apresentava poucos desafios aos espíritos mais inquietos, e estes mal sabiam como direcionar a energia de confrontação que brotava neles e queria ardentemente extravasar para o espaço vital e adjacências.


Essas grandes tensões todas se deram em territórios de obscuridade, um desconhecimento resultante justamente das faltas de confrontação “não armadas”. A falta de integração e de conhecimento sobre os outros lados de uma questão, sobre os outros interesses envolvidos, sobre as formas de resolução que poderiam ser encaminhadas. Não havia tantos encurtamentos tecnológicos e culturais das distâncias. O outro era de fato alguém distante, um estranho, um estrangeiro, mas esse ambiente global mudou radicalmente, então as relações sociais, interpessoais e internacionais não podem mais ser como eram, pois o mundo mudou muito, e as pessoas também. Hoje se vê, por exemplo, nas relações entre a Rússia e os EUA, ou entre os EUA e a Venezuela, entre os EUA e o Brasil, entre a Rússia e a Europa, que a integração econômica funciona como enorme bloqueio a qualquer escalada de violência entre eles. No século 20, muitas das disputas internacionais que ocorrem hoje evoluiriam para formas agressivas e não raro armadas, e sendo armadas, sem grandes dificuldades se espalhariam por toda a região e se tornariam generalizadas, mas há fatores impedindo que isso ocorra, apesar dos interesses serem muito mais fortes e organizados. Entre essas barricadas “pela paz” estão as formas de proximidade cultural e de informação globalizada, o estreitamento econômico entre os países, o conhecimento mútuo bem maior que se tem e, portanto, a maior visibilidade e compreensão esfriando os ânimos e facilitando o desenvolvimento da diplomacia e dos acordos comerciais.


As soluções pela força bruta tendem a ser vistas de forma crescente como manifestações de desequilíbrio e despreparo, como formas de “desconhecimento”. Os fatores que justificavam essas atitudes, os contextos que produziam essas “desinteligências” estão sendo erradicados dos ambientes culturais e produtivos. Não se justifica e não se explica mais, de forma racional, qualquer escalada de violência, a não ser é claro pelas parcelas de desconhecimento que ainda atuam, de maneira cada vez mais minoritária e isolada. O mesmo princípio se aplica ao espaço interno das sociedades e ao interior dos grupos sociais. Comportamentos mais mediados e moderados nas situações de confrontação deverão ascender a novas formas de liderança e de normas de convívio social. O desrespeito a tais procedimentos denotará de forma progressiva a ocorrência de um distúrbio ou sintoma, se esfera coletiva ou individual. As ações violentas serão objeto mais de estudos, treinamento e desautorização que de qualquer estímulo ou prestígio. Os procedimentos ainda marcados pela interpelação agressiva ou violenta passarão a ser classificados como formas anacrônicas e resistentes, como delírio de indivíduos ou grupos, sem lugar no mundo civilizado, como deficiência das habilidades. É isso o que se cobrou de governos recentes que adotaram receitas de provocação e de emprego da violência, mas também de grupos insurgentes que fazem uso da violência em todo o mundo. Em ambos os casos há muito mais risco, desgaste e retrocesso que avanços. Essa cultura agressiva é contraproducente e não combativa (não resolve, mas complica), e essa percepção já se infiltra também nos grupos sociais e no campo interpessoal. Confrontação é confrontação do conhecimento, do preparo e do diálogo, é atitude produtiva, ou seja, confrontação dialógica.


Na cultura do século 21 há muito mais oportunidades e jogos em andamento, há inúmeras frentes, não há um único ponto em disputa, uma única chance, o “tudo ou nada”. Se é preciso transigir ou conceder em uma questão, há como recuperar e superar o revés em seguida, no prosseguimento regular dos jogos. Quando se perde um negócio, a possibilidade de se apresentarem novas janelas negociais é imensa. Quando se disputa um valor, as condições de negociação nunca devem ser dramáticas, mas sim tranqüilas. São essas novas atitudes que mais avançarão no terreno produtivo do século 21, na política, no comércio ou em qualquer outra área de atividade.


A paz, como vimos, não traz mais a imagem de tédio, de tranqüilidade excessiva, de imobilismo e inércia, mas de confrontações sadias e constantes.


Teoria Geral das Forças Produtivas 13


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